sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Entrando pelo Tube

Por Luciano Pires*

Dois acontecimentos interessantes marcaram a passagem de 2009 para 2010: o caso de Geisy Arruda, a garota que foi à escola com um vestidinho e quase foi linchada e o comentário de Boris Casoy sobre os garis na televisão, que foi ao ar sem que ele percebesse.

O mundo quase caiu sobre Geisy, que no final acabou se dando muito bem, transformada numa quase celebridade em programas de televisão. Mas caiu mesmo foi sobre o Boris, que teve seu passado revolvido por todos aqueles que já não gostavam dele ou ficaram indignados com o comentário. Bem, já escrevi sobre esses assuntos. Vá ao Google e procure por "Os Neocaretas" e "Eribertos e Francenildos".

O que me interessa agora é refletir sobre a forma como esses assuntos ganharam relevância nacional.
Veja só: o caso da Geisy ficou restrito aos alunos que testemunharam o bafafá na escola, a Uniban. Só explodiu cerca de um mês depois do incidente, quando os vídeos foram parar no Youtube e começaram a repercutir em diversos blogs. Dali a coisa pulou para os jornais, rádios, televisões e... pronto!

No caso do Boris, embora o comentário tenha ido ao ar em rede nacional, está quase inaudível. Foi feito durante a exibição de uma vinheta do noticiário que ele apresenta na TV Bandeirantes. Pouca gente viu e quem viu não ouviu direito. Mas alguém gravou, legendou e colocou no Youtube. Pronto! Um milhão e meio de visitas ao vídeo em uma semana!

Onde quero chegar? Simples: nenhum desses dois casos tomaria proporção nacional sem a internet. Nenhum causaria comoção sem os vídeos no Youtube. E quem é que produziu os vídeos? O da Geisy foram estudantes filmando com celulares. O do Boris foi alguém que capturou da televisão, com cuidados técnicos mínimos. Custo de produção? Zero. Qualidade de produção? Nenhuma. Investimento em divulgação? Nicas. Custo de distribuição? Nada.

Neste novo mundo, qualquer um pode provocar um impacto imenso na sociedade. Basta capturar conteúdo relevante. O resto a internet faz... São bilhões de celulares, máquinas fotográficas e filmadoras digitais. Milhões de computadores com softwares simples de edição. Bilhões de conexões com a internet. Você já parou para refletir sobre o poder que cada um de nós passa a ter num contexto como esse? Basta capturar algo relevante.

Comentei em outro artigo que a definição de "relevância" - numa sociedade em que Platão perde para o Latino - é relativa. "Relevância" hoje em dia tem muito mais a ver com o espetáculo e a ideologização dos discursos do que com qualquer outra coisa. Mas a televisão que tratou a internet como besteira, capitulou. Entendeu que precisa desse conteúdo "relevante". A cada dia mais e mais imagens tecnicamente horrorosas da internet ocupam espaço na televisão.

O apuro técnico dá lugar ao conteúdo. Infelizmente focado em sexo, morbidez e "pegadinhas".
Talvez seja esse o preço do deslumbre, da transição que vivemos neste início da maior revolução que a humanidade já experimentou: qualquer um pode ser escritor, diretor, fotógrafo, artista. E pode ser visto!
Não existem mais segredos. Nada pode ser apagado da memória. Tudo fica disponível.

Tenho a esperança que um dia, passado o deslumbre e mantida a liberdade de acesso, esse conteúdo seja nutritivo.

*Luciano Pires é jornalista, formado pelo Mackenzie. Com 26 anos de profissão, atuou como cartunista, executivo de multinacional, colunista de sites, revistas e jornais, além de produtor e apresentador do programa Café Brasil na rádio Mundial FM (95,7 FM) em São Paulo e comentarista do Transnotícias, programa da rádio Transamérica. Luciano é palestrante e autor dos livros "O Meu Everest" (2002), "Brasileiros Pocotó" (2003), "Nóis.. qui invertemo as coisa" (2009). O jornalista também mantém o site (www.lucianopires.com.br).

Fonte: Portal Comunique-se

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Nobreza de araque e ladrões engravatados


Um dos artifícios de proteção dos mais ricos e influentes é o de chamar furtos, apropriações indébitas e coerções de crimes de ‘colarinho branco’, isto é, os que são cometidos pelas autoridades de Estado e pelos burgueses engravatados. 

Há quem ache estranho a dificuldade brasileira de se tratar pessoas que ocupam cargos públicos mais elevados ou dispõem de grandes recursos financeiros como se fossem cidadãos comuns. Estes últimos, isto é, a maioria, quando cometem crimes são processados, presos e tem que responder pelos seus atos. Se forem mais pobres ou mais negros são logo enviados para presídios e outros depósitos de gente, sob as penas da lei. Não raro, são executados nas ruas, antes de viverem seus infernos judiciais e prisionais. Os valores e as propriedades das elites, bem como a cor da pele e o pertencimento a famílias ou grupos políticos e sociais influentes garantem maior impunidade.

O mesmo crime tem respostas estatais diversas. Um dos artifícios de proteção dos mais ricos e influentes é o de chamar furtos, apropriações indébitas e coerções de crimes de ‘colarinho branco’, isto é, os que são cometidos pelas autoridades de Estado e pelos burgueses engravatados. Diferenciando-os por meio de um nome pomposo, tem-se pronta uma estratégia para encobri-los. Os mecanismos reais existentes, usados pela velha máquina de Estado, estão muito distantes do edifício das leis e normas processuais. Vários procuradores e juízes democratas e defensores da virtual cidadania brasileira fazem sua parte. Tentam conseguir que a lei seja cumprida com equidade e que as elites sejam punidas. Há, felizmente, juízes que decidem respeitando a lei e o consenso crítico da população. Outros agem em sentido contrário, derrubando decisões, usando as tecnicalidades jurídicas para ofender o senso básico da racionalidade e da moralidade etc. Em suma, ajustando-se as situações encontradas aos interesses políticos e sociais que se escondem nas sombras do mesmo Estado.

Quando ocorre o recolhimento à prisão de um banqueiro que roubou milhões e a condenação de autoridades que participavam na mesma quadrilha, isto ganha as manchetes da grande imprensa. O espanto é porque tal fato consiste em algo inusual no Brasil. Os pequenos progressos dos direitos de cidadania são comemorados pelos democratas do país e odiados pelas elites. Estas gostariam de jamais serem condenadas por nada. Afinal, prisão é para pobre, preto e para quem mora longe. Por isso, eles usam dos seus privilégios para não irem para cadeia, mesmo condenados ou pegos em fragrante delito. Quando isto ocorre, a explicação está, por exemplo, na existência de um confronto entre o Estado e o criminoso ou um clamor social latente que chega de algum modo às grandes e pequenas mídias, pressionando nesta direção.

Na letra da lei, todos são iguais. Na prática da mesma, alguns são menos iguais do que outros. Nada disto é novo. Repete-se melancolicamente há muito tempo, remontando às origens do Estado e da Sociedade no Brasil. Todos sabem que é assim e muitos acreditam que assim sempre será. Isto se relaciona ao fato de que os compromissos assumidos nas mudanças históricas do país jamais foram rasgados. Mudar sem que as estruturas de poder sejam alteradas em profundidade é um mandamento do devir brasileiro. A impunidade das elites é coisa antiga que vem se renovando e se readaptando às novas circunstâncias que se colocam em cada contexto.

Ainda existem traços nobiliárquicos na formação social brasileira. A ocupação de altos postos de Estado é entendida como uma bruta ascensão social, política e ideológica. Estar neles por ter sido eleito ou por pertencer a uma das complexas clientelas do poder é compreendido por alguns como um salvo-conduto. Isto inclui fazer o que se bem entende, inclusive furtar o erário público ou intermediar a ação de empresários ladrões, lucrando por fora. Essas pessoas acham que a lei é para os outros e não se aplica ao comportamento daqueles que são um simulacro de nobreza togada. Esses pseudonobres, mesmo que sejam simples ladrões, contam com a pompa e a circunstância de seus cargos, suas relações de influência e os privilégios dados a eles pela própria legislação. São nobres de araque. Todavia, eles têm poder de fato e incontáveis meios de se proteger.

O Império e a ordem nobiliárquica da época foram derrubados, em 1889. O governo de Pedro II, apesar de esforços dos seus entusiastas, jamais poderá ser apartado do passado escravista brasileiro. Mesmo tendo mandado sua filha assinar o decreto da Abolição, a velha monarquia não poderá apagar sua forte ligação com a velha instituição escravista, em crise no mundo da época, muito antes de chegar ao fim no Brasil, em 1888. O golpe de Estado militar que inauguraria a república viria um ano e meio após. Os velhos barões imperiais transformaram-se na classe de proprietários de terra, agora sem escravos no velho sentido. Contudo o poder da terra conferiu a eles algo similar ao antigo poder nobiliárquico. As coisas mudaram, mas não muito. A terra não foi repartida e dada aos escravos, bem como lhes foi negada a instrução básica.

Foi no governo de Pedro II que as bases do Estado brasileiro foram assentadas, bem como alguns aspectos da vida social, política e cultural do Brasil, de alguma forma ainda presentes. A partir daí, todas as reformas que ocorreram nos últimos cento e cinqüenta anos se desenvolveram nos limites deste quadro, nunca inteiramente superado. Por aqui, como em toda parte, o passado dá um jeito de se manter no presente e influir no modo que a história segue seu curso. A luta pelos direitos coletivos e individuais de cidadania continua, como nunca, bastante atual.

Luís Carlos Lopes é professor e autor do livro "Tv, poder e substância: a espiral da intriga", dentre outros

Fonte: Agência Carta Maior

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A Classe "C" vai ao paraíso!



Os resultados estão aí, brotando do fundo da sociedade brasileira: entre 2003 e 2005, 27 milhões de pessoas mudaram de patamar social no Brasil, ascendendo para uma condição social superior, mais digna e mais humana. Também a desigualdade regional foi atacada e recuou nos últimos cinco anos. O Nordeste cresceu a um ritmo “chinês” atingindo 7.7% ao ano. Mesmo sofrendo os efeitos da crise, o país foi capaz de oferecer oportunidades e esperança de vida melhor para 91 milhões de brasileiros. O artigo é de Francisco Carlos Teixeira.
“Vejam essa maravilha de cenário
É um episódio relicário
Que o artista num sonho genial
Escolheu para este Carnaval”

(Aquarela Brasileira, Silas de Oliveira, Império Serrano, 1964).

A Fundação Getúlio Vargas (Rio), através do seu Centro de Políticas Sociais, publicou uma recente pesquisa na qual vemos a chamada classe “C” – aquelas pessoas cujos lares recebem entre R$ 1.115 e R$ 4.807 por mês – tornarem-se 49.22% do total da população brasileira. Houve, na verdade, um salto fantástico: em 2003 eram 37.56% da população, passando em 2008, para 49.22% do total de brasileiros. Podemos acreditar que não fosse a crise econômica mundial de 2008/09 este coeficiente seria bem mais alto.

A luta contra as desigualdades
Qual o verdadeiro significado destes números? Simples e direto: a desigualdade social foi, em cinco anos, reduzida drasticamente. Mesmo com um crescimento baixo, mesmo sofrendo os efeitos da crise (nem ”marolinha”, nem tsumani!) o país foi capaz de oferecer oportunidades e esperança de vida melhor para 91 milhões de brasileiros. Para tornar mais claro o impacto podemos citar um jornal que não pode ser, de forma alguma, considerado “chapa-branca”, O GLOBO: “... essa migração em massas alterou o rumo da divisão historicamente desigual do bolo no Brasil...”.

Desde os anos '30, do século XX, quando a Questão Social deixou de ser caso de polícia e virou desafio do Estado, a discussão sobre os métodos de sanar as justiças sociais tem sido o centro do debate político no país. Durante os anos '30, de 1930 até 1945, Getúlio Vargas acreditou que o autoritarismo político, a repressão, e um jogo dual entre patrões e trabalhadores seriam o suficiente para alterar a injusta divisão social do país. Foram dados, então, passos enormes, se comparamos com o imobilismo e a repressão vigente na República Velha (1889-1930). Justiça do Trabalho, sindicalismo oficial, CLT forma passos de refundação da Questão Social no Brasil. Porém, o autoritarismo político, a perseguição da esquerda não varguista e o atrelamento ao Estado constituíam o lado quase oculto da “dádiva” varguista.

Após a estagnação de Dutra – de quem Pablo Neruda disse ter “ojos de cerdo” – voltou-se, ainda com Vargas, agora entre 1951-1954, para um modelo mais descomprimido de distribuição social. Ainda aí o Estado foi o agente básico da justiça social, estabelecendo o salário mínimo como referência de justiça (o então ministro do trabalho, Joao Goulart, dará um aumento de 100% do mínimo, despertando a ira da classe patronal. No Primeiro de Maio daquele fatídico ano de 1954 o salário mínimo era descongelado, para horror das associações patronais. Abriu-se aí a crise cujo desfecho será um tiro solitário num dos salões do Palácio do Catete, em agosto de 1954.

1954 contra 1964
Com um tiro no peito, Getulio adiou em 10 anos o golpe da UDN: os políticos de direita do país, cansados de perder as eleições e a escolha popular, e com calos nos dedos de tanto bater à porta dos quartéis (expressão do amigo, Marco Aurélio Garcia!) foram enfim atendidos. Deu-se, então, o Estado Novo da UDN. Uma “santa aliança”, quer dizer bendita pela Igreja organizada nas “Marchas da Família com Deus pela Liberdade ( ou seria pela Propriedade?)”, entre empresários, mídia, classe média (assustada, com a maré montante de um jovem proletariado urbano).

Desde 1964, todos se reuniram em torno da ditadura civil-militar (não podemos esquecer a participação, o apoio civil – os governadores eleitos do Rio, São Paulo e Minas Gerais eram as lideranças do Golpe - e das entidades ditas “de classe”, quer dizer patronais) ao regime que durou de 1964 até 1985.

Mesmo aí, as classes patronais ficaram insatisfeitas com os rumos da Questão Social: os sindicatos dos trabalhadores estavam amordaçados, suas direções presas, exiladas ou ainda pior... Arrocho salarial, reforma regressiva da CLT, fim da liberdade de expressão, etc... eram as marcas do novo regime. Mas, após o surto liberal – Roberto Campos, ex-embaixador nos EUA, assumiu o ministério do Planejamento e em nome do combate à inflação reduziu drasticamente os direitos dos trabalhadores! – os próprios militares foram tomados de uma febre nacionalista e desenvolvimentista.

Malgrado a repressão, brutal entre 1969 e 1978, anos de chumbo, anos de terror (onde mais uma vez os civis tiveram um papel central, como na Operação Oban), vários setores da ação do Estado foram fortalecidos e alguns programas sociais foram montados, tais como o Estatuto da Terra (1964 ) e o Funrural (1967). Trata-se, é claro, de medidas preventivas, visando esvaziar o movimento social, e não a fim de atendê-lo. Contudo, mesmo isso, migalhas da mesa do “Milagre Brasileiro”, era demais para as “classes patronais”.

Democratização e Imobilismo
Pegando carona, de forma imoral, posto que só elas lucrassem com a ditadura, estes mesmos setores embarcaram na luta pela democratização. Inscreveram, aí, ao lado das exigências básicas da população, uma enorme lista de ações que deveriam reduzir o Estado, transformá-lo em Estado Mínimo. Acusavam os militares de “estatismo”. Eram dados os exemplos de Thatcher ou Reagan, os teóricos da chamada Escola de Chicago, the chicago's boys, para “consertar” o país. Um país que nunca dera escola às suas crianças, onde a fome batia à porta de milhões (salve, salve, Betinho!), onde faltava água limpa e esgoto corrente, deveria ter seu Estado reduzido ao mínimo.

As exigências (neo)liberais, em tal contexto, assemelham-se, nos países pobres, ao genocídio puro e simples. O Consenso de Washington seria, em verdade, economizar em escolas, em merenda escolar, em estradas, em hospitais para, em fim, pagarmos a dívida sem risco para os fundos de pensões norte-americanos e europeus. Nossa elite aplaudiu. Aplaudiu a maior transferência de renda regressiva da história, canalizando o fruto do trabalho dos povos do hemisfério sul para as economias centrais do capitalismo.

Contudo o projeto de modernização autoritária e regressiva faliu. Deu-se a crise do petróleo. A crise da dívida externa. A crise dos preços das commodities – da re-inteiração da condição colonial. O movimento social, autônomo desde as greves do ABC, em 1980, fortemente ancorado numa opinião pública exigente e crítica baniu, em um final melancólico, o regime autoritário.

Esperanças e Frustrações
A redemocratização trouxe grandes esperanças. Principalmente a idéia generosa que os direitos cívicos não mais se resumiam em votar e ser votado, em poder exprimir sua crítica presa na garganta, em gritar o grito daqueles desde sempre sem voz. A redemocratização do Brasil, no início dos anos '80 do século XX – bem como de toda a América do Sul – exigia os direitos cívicos básicos e muito mais. Cidadania era, então, um conceito expandido, alargado para abranger educação, saúde, moradia, transporte e, mais além, igualdade social, racial, de gênero e de opção sexual.

Contudo, desde a reunião da Assembléia Nacional Constituinte, a direita tradicional e a nova direita liberal uniram-se, no chamado “Centrão”, para paralisar as reformas necessárias. E aí vivemos anos seguidos de incompetência – governos Sarney, Collor e Itamar – somados aos anos de reformas regressivas, na Era FHC. Esta se inicia, no próprio discurso de posse do Presidente FHC, prometendo encerrar a “Era Vargas”. Ora, o que seria a “Era Vargas”? Tratava-se, em verdade, de impor o Estado Mínimo, aceitar a captura do Estado pelos interesses privados, acobertados pela instituição de agências reguladoras, a ameaça de um Banco Central dito “independente” (mas, constituído de personagens saídos e chegados da grande banca) e a total ausência de qualquer política pública de desenvolvimento, emprego ou trabalho. O fundamentalismo monetário, o medo pânico de destruir uma arquitetura de controle da inflação tão frágil que qualquer solavanco de crescimento do PIB poderia derrubar o Plano Real. Era como o médico que para extinguir a febre mata o paciente. Acreditava-se que o país, para controlar a inflação, não poderia crescer. Inflação ou crescimento: este era o falso dilema do liberalismo.

Rompendo com o passado
A vitória do Partido dos Trabalhadores veio exatamente romper, como no caso do nó górdio, o dilema. A questão é: como crescer, como erradicar a desigualdade social, sem inflação? O papel do Estado como condutor do processo, a criação de políticas corretivas das desigualdades sociais e regionais, bem como olhar o povo como cidadão, e não como mão de obra fácil e disponível, eis a resposta proposta desde 2003. Tudo isso recusando o autoritarismo e o paternalismo. Não se tratava de “encerrar a Era Vargas”. Tratava-se de ir mais além!

Os resultados estão aí, brotando do fundo da sociedade brasileira: entre 2003 e 2005, 27 milhões de pessoas mudaram de patamar social no Brasil, ascendendo para uma condição social superior, mais digna e mais humana. São novos consumidores, que exigem seus direitos sociais expandidos: “... os anos 2000 permitiram ao [novo] consumidor não só comprar, mas escolher o produto com que mais se idêntica” (O GLOBO, 7/02/2010). Também a desigualdade regional foi atacada e recuou nos últimos cinco anos: segundo Marcelo Néri, o Nordeste – aquele mesmo Nordeste de personagens como Baleia, de Graciliano Ramos ou do “lobisomem amarelo” (o homem atingido pelas doenças) de José Lins do Rego – cresceu a um ritmo “chinês” atingindo 7.7% ao ano.

Em suma: vivemos num país melhor, mais justo e menos desigual.

Francisco Carlos Teixeira Da Silva, professor da UFRJ, é autor, com Maria Yedda Linhares, de “Terra Prometida: uma história da questão agrária no Brasil”.


Fotos: "Casamento na Roça", de Portinari

Fonte: Agência Carta Maior
 

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

UMA GUERRA NÃO DECLARADA – BRUTAL E VIOLENTA

Por Laerte Braga

O que leva um país como a Colômbia a aceitar a presença de militares estrangeiros em seu território? A luta contra o narcotráfico? Ora, o presidente do país iniciou-se na política pelas mãos de Pablo Escobar, um dos maiores traficantes de todos os tempos. É apoiado por grupos paramilitares formados a partir de mercenários (assassinos profissionais) e financiados por latifundiários e grandes empresários, com profundas ligações com o tráfico de droga.

Os relatórios do Departamento antidrogas do governo dos EUA, que acusavam Álvaro Uribe de ligações com o tráfico, sumiram depois de divulgados pela mídia norte-americana. Foi decisão do governo do presidente George Bush. Mais importante que o combate às drogas é a ocupação militar da Colômbia de olho na Amazônia, nas reservas de nióbio (mineral estratégico para armas nucleares, foguetes e aviões) naquela região, de urânio e na necessidade de impedir governos que se oponham ao controle norte-americano prosperem ou consolidem a independência real de países como a Venezuela.

Os Estados Unidos têm a maior dívida pública do mundo. É impagável e o modelo capitalista só faz acentuá-la. A única forma do império sustentar-se é na política de guerras e conquistas, saques, processo de recolonização de países independentes. É o que fazem qualquer que seja o governo, o presidente.

Uma declaração de alta autoridade dos serviços de inteligência dos EUA, publicada no WASHINGTON POST, um dos mais importantes jornais daquele país, fala da autorização concedida a forças de combate ao “terrorismo”, para matar qualquer pessoa em qualquer parte do mundo desde que essa pessoa signifique riscos para os interesses norte-americanos. A declaração foi feita à luz do dia, no governo democrata de Barack Obama e não foi desmentida. Na prática, é uma reafirmação de ordens existentes desde o governo Bush (oficialmente) e vigentes extra-oficialmente desde o fim de segunda grande guerra.

A cidade mineira de Araxá é depósito, digamos assim, de grandes reservas de nióbio. Moradores de Araxá relatam com freqüência que, independente do turismo, da atração exercida pelo Grande Hotel de Araxá (privatizado nos governos Azeredo e Aécio), é grande o número de japoneses e norte-americanos interessados na compra do nióbio.

As reservas descobertas na Amazônia transformam o Brasil em bem mais que o maior detentor de reservas do mineral em todo o mundo. Mas no único exportador. Todo o nióbio usado no resto do mundo sai do Brasil. Entre a quantidade do mineral exportado legalmente e a quantidade real, há uma diferença elevada.

Ou seja, 60 por cento do nióbio brasileiro é contrabandeado.

As FARCs são apenas pretexto dos norte-americanos para consolidar posições na América do Sul, parte do mundo que consideram extensão de seu território e seus interesses.

A base militar dos EUA no Paraguai, ainda ao tempo do governo anterior ao de Fernando Lugo, foi instalada com o pretexto de combater o terrorismo ao Sul dessa parte do mundo. O governo de Bush alegava que a grande colônia palestina na região de Foz do Iguaçu servia de abrigo a terroristas e que por lá já andara inclusive o líder da Al Queda, Osama bin Laden. Está ali o quinto maior reservatório subterrâneo de água doce em todo o mundo, o Aqüífero Guarani.

Os palestinos que residem na região se dedicam ao comércio e o dinheiro que enviam a seu país de origem, o fazem para seus familiares. As vítimas da barbárie sionista e por falta de perspectivas de sobrevivência. Uma das práticas sistemáticas de Israel, além de ter se apropriado da água em territórios palestinos, é destruir a economia da região de Gaza. Ali se produz flores e hortifrutigranjeiros que exportados servem para o sustento dos palestinos. Em tempos normais cerca de 150 mil caixas diárias de tomates, por exemplo, são exportadas para a Arábia Saudita. Israel não permite que isso aconteça mais.

O golpe militar em Honduras, montado e financiado pelos EUA, dentro da estratégia de “legitimá-lo” com a farsa de uma eleição de cartas marcadas, cumpriu o papel de evitar a expansão da ALBA – ALIANÇA BOLIVARIANA DA AMÉRICA LATINA – contraponto à transformação dos países latino-americanos em colônias de Washington projeto embutido na proposta da ALCA – ALIANÇA DE LIVRE COMÉRCIO DAS AMÉRICAS –.

E ao mesmo tempo cumpre o papel de laboratório para futuros golpes em países latino americanos que se opõem às políticas imperiais dos norte-americanos.

O nível de agressividade dos EUA aumentou desde a eleição de Hugo Chávez, de Evo Morales e Rafael Corrêa na Venezuela, Bolívia e Equador, respectivamente. Da presença de Lula no governo brasileiro. E governos de esquerda no Paraguai e no Uruguai, além das posições nacionalistas de Cristina Kirchner na Argentina.

Os investimentos em partidos políticos fiéis a Washington cresceram de forma significativa diante dessa realidade. Está eleito um antigo colaborador de Pinochet no Chile (Sebastián Piñeira). No Brasil o PSDB, o DEM e o PPS são os braços do capital norte-americano.

A presença de Daniel Ortega na Nicarágua e a de um governo de centro-esquerda em El Salvador acentua a preocupação dos EUA. A proposta de Chávez de formação de um bloco político e econômico latino americano assusta o império.

No Brasil, considerado estratégico para os interesses dos EUA, a política norte-americana tem oscilado entre a prática golpista, 1964, quando a parte das forças armadas brasileiras leais a Washington derrubou o presidente constitucional do País João Goulart e o arremedo de democracia em figuras fabricadas nos laboratórios da mídia que Washington controla a partir, principalmente, do grupo GLOBO de comunicações (jornais, rádios e tevê), não é diferente. Subordinados ao capital estrangeiro vendem diariamente e em doses maciças a alienação enquanto se processa a lenta e gradual ocupação do Brasil. Foi plena no governo de Fernando Henrique Cardoso, funcionário da Fundação Ford,  o doutrina de segurança nacional formulada pela Comissão Tri-lateral – AAA – (América, Ásia e África) foi substituída pelo Consenso de Washington, a globalização definida de forma magistral como “globalitarização” pelo brasileiro Milton Santos.

O que, à época da ditadura, Golbery do Couto e Silva, general da banda do exército brasileiro comandado por Washington, interpretou como sístole e diástole, movimentos de abertura e fechamento segundo as conveniências das elites políticas e econômicas dos EUA.

Elites brasileiras e latino-americanas são apêndices, até porque são apátridas.

Estamos vivendo uma guerra não declarada, mas brutal e violenta e o inimigo é o governo dos Estados Unidos.

Militares brasileiros responsáveis, não subordinados a Washington, têm consciência disso. São minoria, no entanto, diante dos eternos golpistas.

A importância do Brasil em todo esse contexto pode ser medida na frase, sempre permanente, de um ex-presidente dos EUA, Richard Nixon – “para onde se inclinar o Brasil se inclinará toda a América Latina” –.

É a razão pela qual vão investir todos os recursos necessários para eleger o atual governador de São Paulo para suceder Lula. Querem um governo dócil e que complete a obra de FHC. E ainda mais agora que o Brasil se revela detentor de uma das maiores reservas de petróleo em todo o mundo, o pré-sal. Privatizar a PETROBRAS é fundamental para os interesses dos EUA.

Os dez mil soldados que Obama enviou ao Haiti para “ajudar” as vítimas do terremoto, entre outras coisas, garantem as reservas petrolíferas daquele país para empresas dos EUA.

Como toda sociedade de um império, num determinado momento, a doença da barbárie, da violência, da boçalidade permeia o tecido social desse império. Tem sido assim historicamente. E não será diferente com os EUA. Vão ruir por dentro. Os Estados Unidos são uma sociedade doente.

Não significa que não seja necessária a resistência.

Há um processo, vamos ficar no Brasil, que ocupa setores estratégicos do Poder Público (do Estado). Essas garras se estendem ao Judiciário ao Legislativo e encontram eco mesmo num governo de centro-esquerda como o de Lula, em ministros como Nelson Jobim, Reinold Stephanes e políticas que não mudam na essência as estruturas políticas e econômicas sob controle de bancos, grandes empresas e latifúndio.

Por essa razão criminalizam movimentos populares de grande peso como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra), cooptam importantes centrais sindicais e criam um pânico disfarçado na população, uma forma de lacerdismo sem a histeria de Carlos Lacerda. Essa é desviada para a lavagem cerebral imposta por novelas de tevê, programas conduzidos por figuras como Xuxa, informações a partir de telejornais mentirosos – JORNAL NACIONAL –, ou os preconceituosos como Boris Casoy (teve um chilique quando viu garis na telinha no ano novo), bordéis transformados em catedrais como o Big Brother, catedrais do sucesso, do dever ser, do aceitar para triunfar.

E nem falei na posição de extrema-direita adotada pela Igreja Católica através de seus principais dignatários desde João Paulo II, acentuada com Bento XVI, ou nas casas chamadas igrejas de estelionatários como Edir Macedo (tem base em Miami, paraíso dos mafiosos do mundo inteiro).

Há uma guerra não declarada, mas presente em cada momento das nossas vidas e em jogo está a independência e a soberania nacionais. O futuro do Brasil vale dizer de nossos filhos, netos.

A opção andar ereto e de cabeça erguida ou cair de quatro e aceitar a realidade que vem imposta de Washington é nossa.

Resistir ou cair.

O senador Artur Virgílio divulgou um comunicado oficial através de sua assessoria que iria levantar-se cedo, está em Washington acompanhado de outro corrupto, Eduardo Azeredo, para tomar café com o presidente Obama.

Em qualquer cidade de porte médio dos EUA. ou New York e Washington, é possível ir a uma loja de fotografia e tirar uma foto ao lado de Obama, como é possível mandar imprimir um jornal com um nome qualquer e publicar a foto na primeira página ao lado do noticiário do dia.

Pego no contrapé o senador Artur Virgílio, agente norte-americano no País, disse que sua assessoria errou ao divulgar que tomaria café da manhã com Obama. Esqueceram de explicar que haviam mais de mil convidados e que mantidos a uma distância segura do presidente dos EUA, tomariam seus cafés em suas mesas enquanto Obama, em rápida aparição iria saudar os presentes (todos comprados e muito bem pagos pelos EUA), tomaria um rápido café, falaria das intenções democráticas de seu país para com a América Latina e o mundo e abençoaria com uma oração os presentes.

É uma das batalhas da guerra. É assim que fazem, contam com políticos venais como Artur Virgílio e Eduardo Azeredo e sonham ter José Collor Serra na presidência a partir de 2011.

Aí viramos BRAZIL. Deixamos de ser um gigante adormecido que está acordando e passamos a ser um gigante dominado e controlado por uma sociedade doente. O império norte-americano.

Fonte: Grupo Cidadania Brasil

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Dieta ou exercício

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – Exercício físico ou restrição alimentar. Qualquer dos dois fatores evitou que ratos obesos desenvolvessem disfunção cardíaca, segundo um estudo feito na Faculdade de Medicina em colaboração com a Escola de Educação Física e Esporte, ambas da Universidade de São Paulo (USP).

O trabalho indicou também que a associação das duas condutas não medicamentosas não resulta em benefício adicional na função cardíaca. A explicação dos pesquisadores para isso é que cada uma das intervenções isoladamente já é suficiente para evitar que a obesidade crônica provoque a disfunção cardíaca.

De acordo com Carlos Eduardo Negrão, diretor da Unidade de Reabilitação Cardiovascular e Fisiologia do Exercício do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e orientador do estudo, as alterações cardíacas decorrentes da obesidade podem ser evitadas “se a restrição alimentar ou o exercício físico for utilizado como conduta não medicamentosa para interromper o processo de obesidade crônico”, disse.

Além de avaliar os efeitos do treinamento físico e da restrição alimentar na função cardíaca, um dos objetivos do estudo foi tentar esclarecer o papel dessas intervenções nos mecanismos moleculares envolvidos nas alterações cardíacas causadas pela obesidade.

Os resultados fazem parte da tese de doutorado “Efeito do treinamento físico e da restrição alimentar na função cardíaca e resistência à insulina em ratos obesos”, de Ellena Paulino, feita com apoio de Bolsa da FAPESP e defendida em novembro de 2009, com orientação de Negrão.

O docente também coordena o Projeto Temático “Exercício físico e controle autonômico na fisiopatologia cardiovascular”, apoiado pela Fundação, e é professor titular da Escola de Educação Física e Esporte da USP.

“O estudo acrescenta conhecimentos importantes sobre o papel do exercício e da restrição calórica nos mecanismos moleculares associados à função cardíaca na obesidade”, disse Negrão.

Na pesquisa, ratos wistar machos foram alimentados com dieta normocalórica (quantidade normal de calorias) ou hipercalórica (rica em gordura e açúcar) durante 25 semanas. Após esse período, os animais alimentados com a dieta hipercalórica foram subdivididos em quatro grupos e acompanhados por mais dez semanas.

No primeiro grupo, os ratos continuaram recebendo a dieta hipercalórica e foram mantidos sem treinamento físico. No segundo, continuaram com dieta hipercalórica e foram treinados. No terceiro, deixaram de receber esse dieta para serem submetidos à restrição alimentar (menos 20% da ingestão diária). No quarto grupo, os ratos foram submetidos ao treinamento físico e à restrição alimentar.

“Após a vigésima quinta semana, os animais submetidos à dieta hipercalórica não apresentavam alterações na função cardíaca, embora já apresentassem substancial ganho de peso”, explicou Ellena.

“Após mais dez semanas de alimentação rica em gordura e mais ganho de peso corporal, eles apresentaram alteração na força de contração do coração e nas proteínas moleculares envolvidas nessa função. Isso foi evitado nos animais submetidos ao exercício físico ou à restrição alimentar”, contou.

Outros benefícios

Outro resultado importante sobre o papel do exercício e da restrição alimentar alcançado no trabalho está relacionado ao metabolismo de lípides. “A restrição alimentar em associação com o exercício físico diminuiu significativamente a esteatose e a hipertrigliciridemia em animais obesos”, disse Ellena.

Mas se por um lado a associação da restrição alimentar e do exercício físico não mostrou efeito cumulativo nos parâmetros cardíacos, por outro lado essas duas intervenções associadas diminuíram a quantidade de gordura estocada no fígado de animais obesos (esteatose hepática) e, também, os níveis de triglicérides plasmático.

“Embora a restrição alimentar isoladamente diminua a quantidade de gordura acumulada no fígado, ela aumentou a concentração de triglicérides plasmático, o que sugere um aumento na resistência hepática à insulina. Esses são achados importantes. Sabe-se que a esteatose, triglicérides aumentados e a resistência à insulina elevam o risco de doença cardiovascular”, destacou Ellena.

Segundo a pesquisadora, o trabalho permite concluir que a restrição calórica e a prática de exercício devem ser recomendadas para a prevenção de alterações cardíacas e metabólicas causadas pela obesidade.

Fontge: Agência Fapesp

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domingo, 24 de janeiro de 2010

Haiti: Os EUA criaram o terremoto do Haiti?



Marinha russa denuncia que os EUA criaram o terremoto do Haiti

A Frota Russa do Norte indica que o sismo que devastou o Haiti foi, claramente, resultado de um teste da Marinha norteamericana através de uma de suas armas de terremotos e que elaborou um diagrama de sucessão linear em relação aos terremotos denunciados que casualmente se produziram à mesma profundidade na Venezuela e em Honduras. 

A Frota do Norte tem monitorado os movimentos e atividades navais dos EUA no Caribe desde 2008 quando os norteamericanos anunciaram sua intenção de restabelecer a IV Frota, que foi desmobilizada em 1950, e ao que a Rússia respondeu, um ano mais tarde, com a Frota comandada pelo cruzador nuclear “Pedro, o Grande” começando seus primeiros exercícios nesta região desde o fim da Guerra Fria.

Desde o final da década de 70 do passado século, os EUA “avançaram muito” o estado das suas armas de terremotos e, segundo estes relatórios, agora empregam dispositivos que usam uma tecnologia de Pulso, Plasma e Sônico Eletromagnético Tesla junto com “bombas de ondas de choque”.

O relatório compara também as experiências de duas destas armas de terremotos da Marinha dos EUA na semana passada, quando o teste no Pacifico causou um sismo de magnitude 6,5 atingindo a área ao redor da cidade de Eureka, na Califórnia, sem causar mortes. Mas o teste no Caribe já causou a morte de, pelo menos, 140 mil inocentes.

Segundo o relatório, é “mais do que provável” que a Marinha dos EUA teve “conhecimento total” do catastrófico dano que este teste de terremoto poderia ter potencialmente sobre o Haiti e que tinha pré-posicionado o seu Comandante Delegado do Comando Sul, General P.K. Keen, na ilha para supervisionar os trabalhos de ajuda se fossem necessários.

Quanto ao resultado final dos testes destas armas, o relatório adverte que existe o plano dos EUA da destruição do Irã através de uma série de terremotos concebidos para derrubar o seu atual regime islâmico. Segundo o relatório, o sistema experimentado pelos EUA (Projeto HAARP) permitiria também criar anomalias no clima para provocar inundações, secas e furacões.

De acordo com outro relatório coincidente, existem dados que permitem estabelecer que o terremoto de Sichuan, na China, em 12 de maio de 2008, de magnitude 7,8 na escala Richter, foi criado também pela radiofrequência do HAARP. Ao existir uma correlação entre a atividade sísmica e a ionosfera, através do controle da Radiofrequência induzida por Hipocampos, nos marcos do HAARP, conclui-se que:

1.- Os terremotos em que a profundidade é linearmente idêntica na mesma falha, se produzem por projeção linear de frequências induzidas.

2.- A configuração de satélites permite gerar projeções concentradas de freqüências em pontos determinados (Hipocampos).

3.- Elaborou-se um diagrama de sucessão linear dos terremotos denunciados em que casualmente todos se produziram à mesma profundidade.

- Venezuela, em 8 de janeiro de 2010. Profundidade: 10 km.
- Honduras, em 11 de janeiro de 2010. Profundidade: 10 km.
- Haiti, em 12 de janeiro de 2010. Profundidade: 10 km.
O restante das réplicas ocorreram em profundidades próximas dos 10 km.

Logo após o terremoto, o Pentágono informou que o navio-hospital USNS Confort, ancorado em Baltimore, convocou sua tripulação para zarpar para o Haiti, ainda que pudessem levar vários dias até a chegada no Haiti. O almirante da Marinha, Mike Mullen, chefe do Estado Maior Conjunto, disse que o Exército dos EUA trabalhava preparando a resposta de emergência para o desastre.

Fraser, do Comando Sul (SOUTHCOM), informou que navios da Guarda Costeira e da Marinha dos EUA na região foram enviados para oferecer ajuda mesmo que tenham recursos e helicópteros limitados.

O portaviões USS Carl Vinson foi enviado da base naval de Norfolk, Virginia, com sua capacidade de aviões e helicópteros completa e chegou ao Haiti nas primeiras horas da tarde de 14 de janeiro. Outros grupos adicionais de helicópteros unir-se-ão ao Carl Vinson, declarou Fraser.

A Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), já operava no Haiti antes do sismo. O presidente Obama foi informado do terremoto às 17h52 de 12 de janeiro e solicitou ao seu pessoal que se a assegurassem de que os funcionários da Embaixada estivessem a salvo e que começassem os preparativos para proporcionar a ajuda humanitária que fosse necessária.

De acordo com o relatório russo, o Departamento de Estado, USAID e o Comando Sul dos EUA começaram seu trabalho de “invasão humanitária” ao enviar pelo menos 10.000 soldados e mercenários, para controlar, no lugar da ONU, o território haitiano após o devastador “terremoto experimental”.


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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A IMPRENSA E O NOVO BRASIL

Por Emílio Odebrecht

No final do ano passado, a revista "The Economist" brindou-nos com uma matéria de capa cujo título era: "O Brasil decola". A reportagem chama nosso país de maior história de sucesso da América Latina. Lembra que fomos os últimos a entrar na crise de 2008 e os primeiros a sair e especula que possamos nos tornar a quinta potência econômica do globo dentro de 15 anos.

Não é apenas a revista inglesa que vem falando dos avanços aqui obtidos nos campos institucional, social e econômico nas últimas décadas. Somos hoje referência no mundo e um exemplo para os países em desenvolvimento, vistos como uma boa-nova que surge abaixo da linha do Equador.

Diante disto, me pergunto se a imprensa brasileira está em sintonia com a mundial -que aponta nossos defeitos, mas reconhece nossos méritos.Tal dúvida me surge porque há um Brasil que dá certo e que aparece pouco nos meios de comunicação.
 Aparentemente, o destaque é sempre dado ao escândalo do dia.

Isso deixa a sensação de que não estamos conseguindo explicar aos brasileiros o que a imprensa internacional tem explicado aos europeus, norte-americanos e asiáticos.

Tornar públicas as mazelas é obrigação da imprensa em um país livre. Mas falar somente do que há de ruim na vida nacional, dia após dia, alimenta e realimenta a visão negativa que o brasileiro ainda tem de si.

Se as coisas por aqui caminham para um futuro mais promissor, é porque, em vários âmbitos, estamos fazendo o que é o certo.

Para líderes políticos, empresariais e sociais dos países que precisam encontrar o caminho do progresso, conhecer nossas experiências bem sucedidas pode ser o que buscam para desatar os nós que ainda os prendem na pobreza e no subdesenvolvimento.

O fato é que, ficando nos estreitos limites do senso comum, a sensação é de que a imprensa, de uma forma geral, considera o que é bem feito uma obrigação -não merecedor, portanto, de ocupar espaços editoriais, porque o que está no plano da normalidade não atrairia os leitores.

Ocorre que o que acontece aqui, hoje, repercute onde antes não imaginávamos. Por outro lado, há uma mudança cultural em curso na sociedade brasileira e a imprensa tem um papel preponderante nesse processo.

O protagonismo internacional do Brasil e nossa capacidade de criar novos paradigmas impõem que a boa notícia seja tão realçada quanto são os fatos que apontam para a necessidade absoluta de uma depuração de costumes que ainda persistem em nossas instituições.

Fonte: Grupo Cidadania Brasil

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O Brasil tem direito à verdade

Por Ayrton Centeno

– Agora você vai conhecer a sucursal do inferno! – avisa o carrasco.

Inferno talvez seja uma palavra branda para o que veio a seguir: choques nos genitais, na cabeça, socos, pauladas, queimaduras. Sangrando, suspenso no pau-de-arara, o prisioneiro só pensa em desmaiar para se evadir do inferno prometido e cumprido. Mas seu algoz ordena:

– Abre a boca para receber a hóstia sagrada!, comanda, instantes antes de  enfiar-lhe um fio elétrico entre os dentes…

Após cinco dias de tortura, a prisioneira está destroçada. Estupram-na então, introduzindo-lhe um cassetete na vagina. Arrancam-lhe os seios. Os tiros que se seguem aliviam o insuportável.

As duas cenas (*) pertencem ao Brasil dos porões. Há milhares delas, já relatadas ou não. Vinte mil brasileiros foram submetidos a torturas e cerca de quatrocentos foram mortos ou continuam desaparecidos. Vinte e cinco anos após o ocaso da tirania que imergiu o país nas trevas de 1964 a 1985, a luz ainda não lhe devassou todos os escaninhos. São pedaços do cotidiano das masmorras da Oban e do DOI/CODI. Sua função, aqui, na abertura do texto, não é outra senão clarear o que está em jogo, agora, no momento em que eu escrevo e em que você lê estas linhas.

Sabemos quem morreu. Mas não sabemos quem matou. Sabemos quem pagou com a carne, o sangue e, em alguns casos, até a alma, o preço de peitar a ditadura. Mas não sabemos quem foi canalha ao ponto de chacinar homens e mulheres algemados. Precisamos saber mais dos martirizados. E precisamos saber dos monstros.

Se não soubermos o que precisamos saber – dos lugares, das circunstâncias, das identidades, das ordens, das palavras – pensaremos sempre que as Forças Armadas, como um todo, quem mandava e quem obedecia, foram protagonistas destes açougues soturnos lavados em sangue, fezes, vômito e urina. Se não ficar esclarecido quem foram os canalhas como saberemos se seu exemplo, na caserna, não permanece exemplar? Se não soubermos, como confiaremos, para qualquer coisa, em militares que fazem de covardes seus iguais? Se não soubermos, como saber se, amanhã, tudo não se repetirá?

O passado não pode ser seqüestrado por carniceiros. Tampouco é propriedade privada de qualquer casta. Pertence ao Brasil e aos brasileiros como sua História que é. Produto de 27 conferências estaduais, com a participação direta de 14 mil pessoas, o Plano Nacional de Direitos Humanos III quer iluminar estes calabouços.

Mas as hostes que querem que os mortos continuem insepultos e seus algozes acobertados são muitas, fortes e variadas. Quem orquestra a reação – como ocorreu na memorável quartelada de 1964 – é a mídia. Ao seu lado, outros personagens da Redentora: a cúpula militar, o latifúndio e a parcela conservadora da Igreja. Cada qual com os seus interesses contrariados. Nem os conglomerados midiáticos nem os seus cães de guarda simpatizam com a instituição de uma Comissão Nacional da Verdade. Manifestam-se furibundos com a idéia de abrir os arquivos, desvelar o nome dos assassinos, descobrir os restos dos trucidados e entregá-los às suas famílias para um descanso digno.

É estranho, porque os dramas contidos nas arcas fechadas a sete chaves são, certamente, fonte potencial de muitas e elucidativas matérias. Porém, o Jornalismo, como se sabe, não é exatamente o negócio das grandes empresas jornalísticas. Aliás, verdade, justiça, memória podem ser vocábulos constrangedores para sua avassaladora maioria.

A negativa do direito à verdade, sobretudo seu tom editorializado e altissonante, diz mais a respeito do sujeito que nega do que sobre o objeto negado. Basta ver o comportamento da grande mídia durante aquilo que, hoje, ela mesma gosta de chamar de “anos de chumbo” que, aliás, lhes foram, em regra, bastante leves. Tanto foi assim que muitos impérios da comunicação floresceram à sombra das baionetas.

Enquanto a imprensa internacional denunciava a prática corrente da tortura no Brasil, a mídia nativa defendia o regime dos generais. E acusava os confrades europeus e norte-americanos de estarem a serviço da “esquerda totalitária” (2). Vejamos, por exemplo, O Globo. No editorial “Torturas?”, de 22 de novembro de 1969, o diário da família Marinho reclama que “jornais franceses, alemães, belgas, austríacos, ingleses, holandeses, italianos publicam frequentemente matérias fantasiosas a respeito de “banhos de sangue” que aqui ocorreriam (…)”. A seguir, O Globo pede que o regime realize uma apuração, brandindo logo a ressalva de que “tais denúncias, no passado recente, não tinham qualquer procedência”.

A algaravia da Folha de S. Paulo é similar: vamos viajar a 1970 e passar os olhos pelo editorial do dia 29 de outubro. Nos seus queixumes, o jornal da família Frias lastima que “no exterior, principalmente na Europa fala-se mal é do Brasil”. A Folha enaltece as obras da ditabranda: a Transamazônica, o PIS, o Mobral, a economia revigorada. “Apesar disso – prossegue – insiste-se lá fora em denegrir a imagem do Brasil (…) Não há outra explicação para essa campanha: má-fé mesmo, uma espécie de represália por não termos deixado que deitasse raízes aqui uma ideologia totalitária e materialista (…)”.

Concorrentes, a Folha e o Estadão partilhavam, porém, idêntica certeza. Na mesma data e ainda no dia seguinte, o Estadão busca explicar esta coisa tão esdrúxula – a convicção de que os presos políticos eram torturados e assassinados no Brasil – como produto de segmentos inconformados com a derrota da “conspiração comuno-demo-cristã-nacionalista apadrinhada pelo Sr. João Goulart”. No dia 30 de outubro de 1969, o jornal Zero Hora, do grupo RBS, saúda o advento da era Médici, a mais brutal e sanguinolenta de todas. Seu artigo de fundo (3) trombeteia que “o Terceiro Governo da Revolução (assim mesmo, com maiúsculas) não vem com planos demagógicos, mas para dar sequência natural ao Movimento de 64, institucionalizando-o definitivamente e levando o país pelos caminhos do desenvolvimento”. Na mesma sentença, canta-se a “naturalidade” na ditadura, sua continuidade eterna e apresenta-se o despotismo como rota do progresso. Nenhum dos jornais defende a tortura como método mas fecha-se convenientemente os olhos para sua existência.

Não será a mídia, portanto, que ajudará a eviscerar uma época capaz de assombrá-la. É tão patético que até podemos imaginar sua postura não como uma opção ideológica mas uma fatalidade da biologia, uma determinante genética golpista. Senão vejamos: implorou pelo golpe em 1954, movimento frustrado pelo tiro que, após fulminar o coração de Getúlio, alvejou o núcleo da conspiração. Dez anos depois, sangrou o governo Goulart até a deposição do presidente constitucional. E aplaudiu a entronização da ditadura…

Por estas e outras, é fácil prognosticar que o PNDH III terá uma vida dura pela frente. Seja como for, é ele que aponta o Norte que o Brasil – como sociedade – e os brasileiros – como cidadãos – terão que perseguir em busca da Verdade, da Justiça e da Memória. E do respeito por si próprios.

(1) Cena 1 – Frei Tito de Alencar Lima, Operação Bandeirantes, São Paulo, 1969. Cena 2 – Sonia Moraes Angel, DOI/CODI, São Paulo, 1973;
(2) Os trechos dos editoriais de O Globo, Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo foram extraídos de Henfil e o Império do Silêncio, artigo de Maurício Maia, no livro Perfis Cruzados/Trajetórias e militância política no Brasil/org. Beatriz Kushnir
(3) Artigo de Zero Hora, reproduzido pela Revista Porém


Fonte: Brasília Confidencial

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O Lula também sou eu

Acabo de assistir ao filme "Lula, o filho do Brasil". Estou emocionada... não posso fazer nenhuma análise sociológica, nem sobre os aspectos cinematográficos e a qualidade técnica da pelicula ou coisa assim...
Minha cabeça viajou demais enquanto eu assistia ao filme. Muitas idéias, muitas lembranças, muitas conexões com outras vidas que compõem esse mosaico...

A frase que mais ficou em mim durante o filme foi aquela dita quando o Lula resolveu recuar da greve e a base manteve o movimento. Alguém gritou "com o Lula ou sem o Lula nós vamos em frente. O Lula também somos nós!"

É isso... o Lula também sou eu...

Tem algumas coincidências. Ser pernambucana, ter passado a infância em Santos, ser Corinthiana kkk, mas não é só isso... eu pensei no meu pai e nos meus tios, que também trabalharam nas fábricas paulistas nas décadas de 60 e 70.


Iam de bicicleta para o trabalho, de Santos para Cubatão, pegar o turno na Cosipa. Eles também eram chamados de "paraibas" ou de "baianos" e também diziam que eles vinham do "norte", porque a geografia do Brasil ainda não compreendia direito o nordeste, e esse país era feito do eixo sul-sudeste.

Eu revivi quando, já adolescente, resolvi militar no PT e isso deu a maior briga em casa com meu pai, mas anos mais tarde ele também virou "lulista". Durante o filme, passaram na minha mente dezenas de rostos amigos, com bandeiras vermelhas, em manifestações políticas.

Também reascenderam as imagens dos quilometros caminhados nas áreas rurais de Alagoas e da Bahia. Eu caminhei muito chão, mas estava bem acompanhada, de pessoas que sonhavam com um mundo melhor, mais igualitário... o engraçado é que às vezes eram comunistas que me cercavam, às vezes eram padres e freiras. Às vezes eram cortadores de cana, garis, trabalhadores do cacau... às vezes eram intelectuais engajados... e tinha dia que era tudo junto, misturado.

Eu lembrei de reuniões e assembléias intermináveis, aos sábados, domingos e feriados... mas tudo bem, era o nosso trabalho e o nosso lazer... a gente não sabia se divertir de outro jeito, a não ser todo mundo junto falando, falando e falando...


Mais dificil foi lembrar dos rostos que não estão mais aqui: Evaldo e Celso, principalmente. Quanto eu sonhei e quanto debati com eles. Nós éramos o Movimento Comunista Revolucionário em Alagoas, nós três. Era a maior tendência do PT, para não dizer o contrário kkkk mas fizemos muita confusão... ahhh, isso fizemos!

Teve uma vez que a gente montou um cinema num armazem de fumo, no agreste de Alagoas, para passar o filme sobre as greves do ABC. Aqueles milhares de sindicalistas, liderados por Lula, cercados de policiais, helicóptero sobrevoando... a cara que os trabalhadores fizeram foi de total espanto... o que é isso meu Deus...

Como num outro filme, que eu estivesse assistindo paralelo ao da tela na minha frente, eu vi mais de uma década de militância profissional rodopiando na minha mente. Sim, porque, no meu caso, as primeiras assinaturas na carteira de trabalho são do Centro de Educação dos Trabalhadores Rurais, em Camamu, e da Central Única dos Trabalhadores, em Itabuna. Eu fui "agitadora" profissional, e bastante competente por sinal....

As campanhas do Lula, nem se fala... na primeira, a de 89, eu terminei com pneumonia, de tanto andar debaixo de sol e chuva, na região cacaueira da Bahia. As outras eu já estava de volta à Alagoas. Na festa da vitória eu já não era mais filiada ao PT, mas comemorei do mesmo jeito...


Por isso, o Lula sou eu. Os erros e acertos desse governo, também são culpa minha... eu também acreditei, apostei minhas fichas e minha juventude nesse projeto... e não me arrependo... muitas coisas vingaram, muitas se perderam, muitas ainda terão que ser conquistadas... mas nesse caso, a coragem de se comprometer é tudo... se der para ir adiante a gente vai, se não der a gente recua, espera a hora certa, não é dona Lindu?!

Eu tenho certeza que vários amigos também sentem a mesma coisa: o Lula sou eu... só para citar os primeiros nomes que me vem a mente: Célia, Regina, Daniel, Zé, Vevéu, Iara, Nelson, Ana, Ricardo, Elder, Dinho, Valdirinha... o Lula somos nós, é ou não é, companheirada!!! E vamos em frente, que ainda não acabou...

foto 1 - arquivo
foto2 - em Itabuna, 1993, Eu, Lula e os sindicalistas da região cacaueira
foto 3 - Itabuna, 1991, Greve Geral no Governo Collor
foto 4 - Lula e as petistas, em Maceió, 1994

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domingo, 10 de janeiro de 2010

Secretaria de Direitos Humanos defende plano atacado por militares, latifundiários e católicos

Protagonista da criação do decreto que institui um novo Plano Nacional de Direitos Humanos, ainda restrito a diretrizes formuladas sob sua coordenação, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República reagiu ontem aos ataques dirigidos às propostas por militares, produtores rurais, setores da Igreja Católica e dois ministros – o da Defesa, Nelson Jobim, e da Agricultura, Reinhold Stephanes.

Em nota emitida no início da noite, a SEDH observa que o plano resultou de um debate de âmbito nacional que envolveu 14.000 representantes da sociedade. Observa também que seu texto foi assinado por 31 dos 37 ministros do Governo Lula. E que o objetivo é “transformar a promoção e proteção dos direitos humanos numa agenda do Estado brasileiro, tendo como fundamentos a própria Constituição Federal e os compromissos internacionais assumidos pelo País”.

O plano prevê a criação de 27 leis, para múltiplos temas e setores, e de milhares de ouvidorias, comitês, observatórios, órgãos de Justiça e outras instâncias no setor público.

A reação ao documento foi iniciada pelos militares e pelo ministro da Defesa, no fim do ano. Eles se opõem à proposta de criação da Comissão da Verdade, que seria formada para apurar responsabilidades por torturas e desaparecimentos durante a ditadura militar. Alegam que a proposta contraria a Lei de Anistia, em vigor desde 1979. Esse objetivo é negado pelo secretário de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi.

Setores da Igreja Católica reagiram negativamente às propostas que prevêem a descriminalização do aborto, a proibição de ostentar símbolos religiosos em estabelecimentos públicos, a união civil entre pessoas do mesmo sexo e o direito de adoção por casais homossexuais.

“Vemos nessas iniciativas uma atitude arbitrária e antidemocrática do Governo Lula”, afirmou o bispo de Assis (SP) e responsável pelo Comitê de Defesa da Vida do Regional Sul-1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom José Simão.

Quinta-feira, a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária também se proclamou contrária a propostas do plano, sob o argumento de que favorecem as invasões de terras e expõe preconceito contra o agronegócio. A presidente da CNA, senadora Kátia Abreu (DEM-MT), diz que o setor rural está preocupado especialmente com uma proposta que sugere que as liminares para reintegração de posse de terras invadidas têm que ser examinadas por uma comissão antes de que sejam cumpridas.

”Quando eu impeço a urgência da liminar, estou estimulando a ocupação e a violência no campo. Eu estou dizendo ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que estou legitimando as suas ações. Isso é uma legitimação das ações do MST”, afirma a presidente da CNA.

A Secretaria Especial de Direitos Humanos contesta as críticas da senadora e assinala que o plano é resultado de um “amplo e longo” debate com a participação da sociedade e atende às demandas de vários segmentos, inclusive o setor do agronegócio.

Ontem, um dia depois da manifestação dos ruralistas, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, reclamou de ter sido excluído dos debates e criticou as propostas para o setor rural. Disse que aumentam a insegurança jurídica no campo e fortalecemdeterminadas organizações, como o MST. Já o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, considerou que o ponto essencial da divergência sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos não é a questão agrária.

“O que está por trás de toda essa questão é a discussão sobre os esclarecimentos dos crimes da ditadura. É disso que a gente está falando no fundo. Eu praticamente esperava uma reação desse tipo, porque foi assim em todos os países que viveram processos semelhantes. Mas penso que são reações que devem ser superadas”, disse Cassel.

Na avaliação do ministro do Desenvolvimento Agrário, “o que existe é uma reação localizada de setores conservadores a esse tipo de agenda, que é uma agenda civilizatória para o país”.
Leia, a seguir, a íntegra da nota divulgada ontem pela Secretaria de Direitos Humanos

“A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) esclarece alguns pontos do Programa Nacional dos Direitos Humanos (PNDH-3):

1. O PNDH-3 é mais um passo na construção histórica que visa concretizar a promoção dos Direitos Humanos no Brasil. Ele foi precedido pelo PNDH-I, que enfatizou os direitos civis e políticos, em 1996, e pelo PNDH-II, que incorporou os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais, em 2002. O Brasil ratificou a grande maioria dos tratados internacionais sobre Direitos Humanos e as ações propostas pelo PNDH-3 refletem este compromisso.

2. A transversalidade é uma premissa fundamental para a realização dos Direitos Humanos, concretizando os três princípios consagrados internacionalmente na Convenção de Viena para os Direitos Humanos (1993): universalidade, indivisibilidade e interdependência. Será impossível garantir a afirmação destes direitos se eles não forem incorporados às políticas públicas que visam promover a saúde, a educação, o desenvolvimento social, a agricultura, o meio ambiente, a segurança pública, e demais temas de responsabilidade do Estado brasileiro. Para atender a este objetivo, o PNDH-3 é assinado por 31 ministérios.

3. A política de Direitos Humanos deve ser uma política de Estado, que respeite o pacto federativo e as competências dos diferentes Poderes da República. Por sua vez, a interação entre todas estas esferas garante a plena garantia dos Direitos Humanos no país.

4. A ampliação da gama de direitos contemplados segue o que vem sendo estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), tratados e convenções internacionais, bem como na Constituição Federal para garantir os princípios fundamentais de dignidade da pessoa humana. Segue ainda as crescentes demandas da sociedade civil organizada.

5. A participação social na elaboração do programa se deu por meio de conferências, realizadas em todos os estados do país durante o ano de 2008, envolvendo diretamente mais de 14 mil pessoas, além de consulta pública. A versão preliminar do programa ficou disponível no site da SEDH durante o ano de 2009, aberto a críticas e sugestões.

6. O texto incorporou também propostas aprovadas em cerca de 50 conferências nacionais realizadas desde 2003 sobre tema como igualdade racial, direitos da mulher, segurança alimentar, cidades, meio ambiente, saúde, educação, juventude, cultura, etc.

7. O PNDH-3 está estruturado em seis eixos orientadores, subdivididos em 25 diretrizes, 82 objetivos estratégicos e 521 ações programáticas, que incorporam ou refletem os 7 eixos, 36 diretrizes e 700 resoluções aprovadas na 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, realizada em Brasília entre 15 e 18 de dezembro de 2008.

8. O Programa tem como um de seus objetivos estratégicos o acesso à Justiça no campo e na cidade e a mediação pacífica de conflitos agrários e urbanos, como preconiza a Constituição Federal. Esta ação está prevista no Manual de Diretrizes Nacionais para o Cumprimento de Mandados Judiciais de Manutenção e Reintegração de Posse Coletiva, editado pela Ouvidoria Agrária Nacional em abril de 2008.

9. O PNDH-3 tem como diretriz a garantia da igualdade na diversidade, com respeito às diferentes crenças, liberdade de culto e garantia da laicidade do Estado brasileiro, prevista na Constituição Federal. A ação que propõe a criação de mecanismos que impeçam a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União visa atender a esta diretriz.

10. O eixo Desenvolvimento e Direitos Humanos, na diretriz 5, prevê a valorização da pessoa humana como sujeito central do processo de desenvolvimento. Neste eixo, a afirmação dos princípios da dignidade humana e da equidade como fundamentos do processo de desenvolvimento nacional constitui um objetivo estratégico. A proposta de regulamentação da taxação do imposto sobre grandes fortunas é prevista na Constituição Federal (Art. 153, VII).

11. O acesso universal a um sistema de saúde de qualidade é um direito humano. Com o objetivo de ampliar este acesso, o PNDH-3 propõe a reformulação do marco regulatório dos planos de saúde, de modo a diminuir os custos para a pessoa idosa e fortalecer o pacto intergeracional, estimulando a adoção de medidas de capitalização para gastos futuros pelos planos de saúde.

12. O PNDH-3 contempla a garantia do direito à comunicação democrática e ao acesso à informação para consolidação de uma cultura em Direitos Humanos, como uma de suas diretrizes. Neste contexto, em consonância com os artigos 220 e 221 do texto constitucional, propõe a criação de um marco legal, estabelecendo o respeito aos Direitos Humanos nos serviços de radiodifusão e a elaboração de critérios de acompanhamento editorial a fim de criar um ranking nacional de veículos de comunicação comprometidos com os princípios dos Direitos Humanos.

13. Quanto aos direitos dos povos indígenas, o processo de revisão do Estatuto do Índio já está em curso desde o segundo semestre de 2008, tendo à frente a coordenação do Ministério da Justiça. Ao apoiar projetos de lei que visam revisar o Estatuto do Índio (1973) o PNDH-3 defende que é preciso adequar a legislação ainda em vigor com os princípios da Constituição, que foi promulgada 15 anos depois daquela lei, e da Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), consagrando novos princípios para o tema.

14. Ao apoiar projeto de lei que dispõe sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo e ao prever ações voltadas à garantia do direito de adoção por casais homoafetivos, o PNDH-3 tem como premissa o artigo 5º da Constituição (Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade). Considera ainda as resoluções da 1ª Conferência Nacional LGBT, realizada em junho de 2008, marco histórico no tema. O programa também está em consonância com tendência recente da própria jurisprudência, que vem reconhecendo o direito de adoção por casais homoparentais.

15. Em consonância com as políticas que vêm sendo desenvolvidas pelo Ministério da Justiça, o PNDH-3 avança no tema da segurança pública ao recomendar a alteração da política de execução penal e do papel das polícias militares, bem como dos requisitos para a decretação de prisões preventivas.

16. O PNDH-3 reconhece a importância da memória histórica como fundamental para a construção da identidade social e cultural de um povo. No eixo direito à memória e à verdade prevê a criação de um grupo de trabalho interministerial para elaborar um projeto de lei com o objetivo de instituir a Comissão Nacional da Verdade, nos termos da Lei 6.683/79 – Lei da Anistia.

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