segunda-feira, 10 de maio de 2010

Coimbra: o PiG(*) bufa mas não ganha eleição

Marcos Coimbra – Especial para o EM*

Enquanto a grande maioria da população dá sucessivas mostras de estar satisfeita com o governo, continua a existir uma parcela da opinião pública que não. Dentro dela, há quem tenha alguma simpatia por Lula e até enxergue virtudes em seu trabalho, admire sua trajetória ou ria de suas tiradas. Mas não gosta do governo e, quase sempre, tem ojeriza ao PT. São aqueles que aceitam o presidente, mas não querem que sua turma permaneça.

A existência desse tipo de sentimento fica clara nas comparações entre a avaliação do governo e o desejo de continuidade. Nas pesquisas, a proporção dos que o aprovam enfaticamente, dizendo que é “ótimo” ou “bom”, anda na casa dos 75%, e há outros 20% que o consideram “regular”. Somados, beiram os 95%, o que deixa apenas 5% da população para repartir as opiniões de que é “ruim” ou “péssimo”.

Quando, porém, se pergunta a respeito de quanto do que Lula faz gostariam que fosse mantido, mais de 20% dos entrevistados responde que preferiria que houvesse mudanças na maior parte ou na totalidade das políticas. É verdade que a opção por mudanças completas é pequena e corresponde quase exatamente à da avaliação negativa. Ainda assim, deve-se registrar que há mais pessoas que o aprovam (agregando avaliações positivas e regulares) que querendo a continuidade de tudo (desejo de 35% delas) ou da maioria das coisas (40%) que faz.

Para alguns dos que querem mudanças, o gesto de Lula, quando escolheu Dilma para sucedê-lo, soou como bravata. É como se ele a tivesse indicado pelo que ela não tem (experiência eleitoral, carisma, jogo de cintura) somente para afrontá-los. “Inventar” uma candidata como ela seria um arroubo de poder, tornado possível pela escassez de lideranças dentro de seu partido. Querer que ela ganhasse seria, no entanto, ir longe demais, atribuir-se uma missão de altíssimo risco, apenas pelo gosto do desafio e a perspectiva de, obtendo sucesso, infligir uma derrota humilhante ao que resta de oposição.

Cada um desses eleitores olha para Dilma e não a vê como simples candidata, em quem se pode ou não votar em função de escolhas racionais. Para eles, ela é uma espécie de provocação ambulante, a encarnação de tudo de que não gostam em Lula, no PT e no governo.

Enquanto ela permaneceu lá atrás nas pesquisas, o mal era menor. Ao contrário, muitas dessas pessoas ficavam felizes a cada confirmação de que o sonho onipotente de Lula estava ameaçado. Quando, no entanto, ela começou a subir, o quadro se complicou. Não é que o impossível passou a ser provável?
Uma parte relevante da mídia brasileira compartilha esses sentimentos. Na verdade, em algumas redações, estão muitas das pessoas mais extremadas nessa mistura de desaprovação ao lulismo e indignação frente à hipótese de Dilma vencer.

Nenhum problema nisso. Afinal, editorialistas, colunistas e repórteres são também filhos de Deus, e possuem as mesmas prerrogativas das pessoas comuns. Têm todo direito de não gostar do que não gostam.

O que é discutível é permitir que suas preferências interfiram em seu trabalho a ponto de comprometê-lo. Por exemplo, deixando-se levar por elas na hora de informar a opinião pública sobre o que está acontecendo na eleição.

Um tom de indisfarçável torcida marcou o noticiário de abril. Quem leu o que vários órgãos da chamada grande imprensa publicaram só ficou sabendo dos “erros de Dilma” e os “acertos de Serra”, os primeiros provocando o “desespero” de Lula e abalos na coligação governista, os segundos gerando empatia na sociedade e novas alianças políticas. Foi informado de que o saldo disso seriam “novas pesquisas”, que mostrariam o avanço de Serra.

Pode ser que venham, mas ainda não chegaram. O que todas as conhecidas apontam é para um cenário de estabilidade: quando se comparam os resultados do final de março, antes da desincompatibilização, com os do final de abril, nada mudou. No Datafolha, a distância entre Serra e Dilma aumentou um ponto, no Ibope, dois. Ou seja, ficou igual. É o mesmo que indicam outros levantamentos, ainda não publicados. A marola do noticiário não parece ter alcançado, pelo menos por enquanto, a imensa maioria do eleitorado. E será que vai tocá-la nos próximos meses?

Torcer é bom e faz parte da política. Querer que seu candidato vença e os outros percam é um sentimento natural. Mas torcer não rima com informar.

*Marcos Coimbra é cientista político e sociólogo

(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

Fonte: Conversa Afiada / Paulo Henrique Amorim

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sábado, 8 de maio de 2010

AVATAR

Por Nélio Azevedo

Depois de assistir ao filme Avatar, de James Cameron e achei a história meio fraca, idílica e romântica.

Os americanos adoram essas historinhas estilo Pocahontas; Me Tarzan, you Jane com uma boa dose de efeitos especiais com os clichês e estereótipos dos executivos desalmados e militares cabeça-de-prego.

Assim como Alien, Exterminador do Futuro, Predador e outras grandes produções, o mote é sempre o mesmo com algumas pequenas variações; uma mulher ou ex-fuzileiro que é bom em alguma arte marcial ou sabe tudo sobre o inimigo, que por sua vez é um bicho desconhecido que nada pode vencer e, quando os Seal ou os marines são chamados vai sobrar pra todo mundo e o fiasco é inevitável. Todo aquele aparato não vale nada diante do perigo.

O fato é que estou lendo o livro sobre a Blackwater, empresa que aluga mercenários a peso de ouro pra fazer o serviço sujo onde quer que os americanos estejam fomentando suas guerrinhas particulares. É a privatização da força de combate que serve de polícia internacional com forte apelo patriótico e encarna o papel de Cavaleiros da Luz numa cruzada religiosa pelo mundo afora, de preferência contra o islã.

Essa empresa, de propriedade do fanático religioso Erik Prince, já pode ser considerada como um dos maiores e mais poderosos exércitos do mundo, com milhares de soldados bem treinados, com farto material de última geração, que agora parte para ter sua própria aviação e marinha. Essa empresa ganhou fama e fez fortuna atendendo aos contratos firmados com empresas particulares e o Departamento de Estado Norte-americano e, sua trajetória no Iraque foi um verdadeiro desastre, com episódios em que se viu envolvida em massacres de civis iraquianos e de seus soldados que, diga-se de passagem, não estão sujeitos a processos criminais no Iraque.

Voltando ao filme Avatar, fico me lembrando da Guerra do Vietnam, país do sudeste asiático proprietário de jazidas de Molibdênio, Tungstênio e outros minerais raros que durante a guerra fria eram usados na fabricação dos caça americanos e, que de forma alguma poderia cair nas mãos de russos ou chineses, aliados das repúblicas populares da região.

Alguns filmes feitos na época da guerra, como “Corações e Mentes”; “Deer Hunter”; e, outros feitos depois: “Apocalipse Now”; “Platoon”; “4 de Julho” e Full Metal Jacket”, onde o ranço que os americanos nutrem pelos povos amarelos, árabes e latinos fica bem evidente através de suas piadinhas e das cenas de massacre que colocaram os EUA no banco dos réus do Tribunal Bertrand Russel, onde foram acusados de genocídio. São bons filmes porque mostram um enredo baseado no olhar que os americanos direcionam para ele mesmos, numa mea-culpa meio sem-vergonha que atende às expectativas da crítica e dá uma satisfação ao mundo.

A história é sempre a mesma, uma crise assola a economia norte-americana, eles elegem o inimigo da vez e, munidos de patriotismo e fé, partem para o pau contra quem quer que seja e esse país tem sempre algum recurso que vale muito no mercado internacional ou representa uma arma mais poderosa no campo da geopolítica. No caso do Iraque, fica evidente a necessidade de empreender uma guerra pelo controle da produção e comercialização do petróleo que não poderia cair nas mãos de chineses nem indianos.

Em Avatar o inimigo é a Mãe Natureza, um lugar perdido numa lua de Júpter que mais parece com a Amazônia, os macacos azuis são uma metáfora dos ianomâmis e o minério valiosíssimo está lá, esperando que a mão dos conquistadores venha pega-lo e, se preciso for, os tratores irão derrubar tudo, até os altares e paraísos naturais que por lá possam existir.

Se tivessem feito um filme sobre o Vietnam ou Iraque teriam levado o Oscar de melhor filme.

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sexta-feira, 7 de maio de 2010

A EDUCAÇÃO NO BRASIL

Por Nélio Azevedo

Enquanto alguns países investem pesado na educação, para que a melhoria do sistema os coloque em condições de competir com outros em condições de igualdade no emergente mercado de trabalho; o Brasil apresenta alguns números que são, no mínimo, preocupantes:

No ano de 2005, mais de 90% dos alunos da escola pública de Tinga, distrito de Maiquinique, Sul da Bahia; abandonaram ou foram reprovados.

Maiquinique encabeça uma lista de 1.242 municípios considerados de investimento prioritário pelo governo, por apresentar os piores resultados no IDEB, Índice de Desenvolvimento da Educação Básica.

Maiquinique teve em 2005 a nota de 0,3 (5ª a 8ª Séries) e, que ao alcançar a nota 2,2 em 2007, fez com que se acendesse uma luz vermelha; a mesma suspeita de fraude recai sobre outras 1.392 cidades que alcançaram notas e conseguiram melhoras tão surpreendentes que adiantaram as metas a serem cumpridas somente em 2011.

Depois de uma visita de três dias, as consultoras do Ministério da Educação não constaram como problemas o fato de parte dos alunos da 5ª série que tinham de se assentar no chão porque não havia cadeiras suficientes nem que a escola rural de 1ª a 4ª série oferecem menos de 4 horas de aula por dia, (não tem fornecimento de energia elétrica e fica tão distante que os alunos gastam muito tempo até ela, já que fica a 12 quilômetros de distância) nem que os métodos “pedagógicos” empregados pelo professor para punir quem não terminou a lição são os mesmos de cem anos atrás. (os alunos ficam de joelhos no centro da sala de aula). Explicação: “A função dos consultores não é fiscalizar, mas ajudar a melhorar”.

Em duas escolas de Maiquinique, as turmas de 3ª e 4ª séries ainda não tinham recebido os livros didáticos e, já estavam no mês de junho.

Ao contatar a editora responsável pela entrega dos livros, ficou constatado um engano na cidade de destino dos livros e cada pai teve que contribuir com R$ 27 para que os alunos tivessem acesso aos livros de português e matemática; isso, numa cidade onde o IDH de 2000 teve 60% da população classificada como pobre.

Em 2004 os gastos da cidade foram auditados pela Controladoria-Geral da União, pelo sorteio de municípios. O relatório apontou desvios de 40% dos recursos do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef) de 2003. Alem da metade da verba para a merenda escolar. Os indícios de desvio somam R$ 130 mil. O orçamento para 2008 prevê menos de R$ 3 milhões para a educação. O ex-prefeito tem até agosto para devolver o dinheiro ou a verba para a merenda escolar será cortada.
  
Veja o ranking das escolas públicas brasileiras. Segundo o Ideb

AS CAMPEÃS DA EDUCAÇÃO PÚBLICA  - 4ª Série:
Escola
Local
Nota 
Esc. Munic. Profª Elisabeth M. Carvalho Almeida
Santa Fé do Sul – SP
8,6
EMEF Armínio Girardi
Arrinha - SP
7,9
E.M. André Ruggeri
Cajuru - SP
7,9
E.M. Profª Cirley Volpe Lopes
Santa Fé do Sul - SP
7,9
E.M. Amilde Tedeschi
Adolfo - SP
7,7
E.M. Rosimares Camargos Benitez
Santa Fé do Sul - SP
7,7
E.M. Prof. Benedito de Lima
Santa Fé do Sul - SP
7,6
EMEF  Profª Ana Maria Segura
Cosmorama - SP
7,5
E.M.  João de Mattos Silveira
Mineiros do Tietê - SP
7,5
Colégio Estadual divino Mestre
Parai - SP
7,4
AS CAMPEÃS DA EDUCAÇÃO PÚBLICA - 8ª Série:
Escola
Local
Nota 
Colégio de Aplicação do Centro de Educação
Recife - PE
8,2
Colégio Militar de Recife
Recife - PE
7,2
Colégio Militar de Salvador
Salvador - BA
7,2
Colégio de Aplicação da UFRJ
Rio de Janeiro - RJ
7,1
E.M. de Formação Professor Governador Portela
Miguel Pereira - RJ
7,0
Colégio Pedro II
Rio de Janeiro - RJ
7,0
Escolal do Recife – FCAP UPE
Recife - PE
6,9
Colégio Militar de Fortaleza
Fortaleza - CE
6,8
Colégio Militar de Brasília
Brasília - DF
6,7
Escola de Aplicação Professor Chaves
Nazaré da Mata - PE
6,6


Como se pode ver, não tem nenhuma escola de Minas Gerais e de vários estados nas melhores colocações e, agente vê tanta propaganda dizendo que os alunos das escolas mineiras tiveram notas acima da média nacional nos testes do ENEN e outras notícias enaltecendo a escola pública mineira que a gente fica pensando que há algum engano.
Nós ou os governantes estamos enganados, ou serão os dois? Esse engano nos faz pensar que o nosso futuro não terá muita diferença do nosso passado, que infelizmente, não tem muita diferença do presente.

Fonte IBGE e Revista Época (Dados e reportagem publicados em 2008)
 

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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Imunidade natural contra HIV

Agência FAPESP – Quando alguém é infectado com o vírus HIV, é geralmente uma questão de tempo até que desenvolva Aids – período que pode ser ampliado com a introdução de tratamento medicamentoso, especialmente nos estágios iniciais da infecção.

Mas há um pequeno número de indivíduos que, mesmo exposto ao vírus, leva muito tempo para apresentar sintomas. E, em alguns casos, a doença simplesmente não se desenvolve.

Na década de 1990, pesquisadores mostraram que, entre aqueles que são naturalmente imunes ao HIV – que representam 1 em cada 200 infectados –, uma grande parte carregava um gene específico, denominado HLA B57. Agora, um grupo de pesquisadores nos Estados Unidos revelou um novo fator que contribui para a capacidade desse gene em conferir imunidade.

O estudo é destaque na edição desta quinta-feira (6/5) da revista Nature. O grupo, liderado pelos professores Arup Chakraborty, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e Bruce Walker, do Instituto Médico Howard Hughes, descobriu que a presença do HLA B57 faz com que o organismo produza mais linfócitos T – glóbulos brancos que atuam na proteção contra infecções.

Pessoas com o gene têm um número maior de linfócitos T, que se grudam fortemente com mais pedaços do HIV do que aqueles que não têm o gene. Isso aumenta as chances de os linfócitos reconhecerem células que expressam as proteínas do vírus, incluindo versões mutantes que surgiram durante a infecção.

Esse efeito contribui para o controle maior da infecção pelo HIV (e por qualquer outro tipo de vírus que evolua rapidamente), mas também torna as pessoas mais suscetíveis a doenças autoimunes, nas quais os linfócitos T atacam as próprias células do organismo.

“A descoberta poderá ajudar pesquisadores a desenvolver vacinas que provoquem a mesma resposta ao HIV que ocorre naqueles que têm o gene HLA B57. O HIV está se revelando lentamente. Essa descoberta representa outro ponto em nosso favor na luta contra o vírus, mas ainda temos um caminho muito longo pela frente”, disse Walker.

“Esse é um estudo notável, que começou com uma observação clínica, integrou observações experimentais, gerou um modelo valioso e derivou desse modelo um conhecimento profundo do comportamento do sistema imunológico humano. Raramente alguém tem a oportunidade de ler um artigo que expande tão grandemente o conhecimento humano”, disse David Baltimore, professor de biologia do Instituto de Tecnologia da Califórnia e ganhador do Nobel de Medicina e Fisiologia em 1975.

O artigo Effects of thymic selection of the T-cell repertoire on HLA class I-associated control of HIV infection (DOI:10.1038/nature08997), de Arup Chakraborty e outros, pode ser lido por assinantes da Nature em www.nature.com.

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quarta-feira, 5 de maio de 2010

“O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO"

José Antônio Oliveira de Resende*

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.

   Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.

  – Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.

    E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.

  – Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

    A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.

    Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:

    – Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

    Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.

    Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...

    Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, t ambém ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.

    O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:

    – Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.

    Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

    Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite....
    Que saudade do compadre e da comadre!

*Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.

Colaboração de Nélio Azevedo

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terça-feira, 4 de maio de 2010

O PROGRESSO CHEGOU AO NORDESTE BRASILEIRO


Por Nélio Azevedo

Pasmem, o Nordeste agora faz parte do mundo econômico brasileiro como produtor e consumidor, quebrando um estigma que o acompanha há muito tempo.

Historicamente, o Brasil começou no Nordeste, as duas maiores Capitanias Hereditárias eram o que hoje é a Bahia e a de Itamaracá, onde é hoje o Estado de Pernambuco. Lá se desenvolveram as duas maiores formas de produção do Brasil Colônia, a cana-de-açúcar e o tabaco, vindo depois outros ciclos como o ciclo do gado e a produção de mandioca, que poucos sabem chegou a ser uma cultura que foi muito valorizada naqueles tempos. É que a farinha de mandioca e seus outros subprodutos, eram muito procurados pelos navios que aqui aportaram, eram produtos desidratados e duráveis.

O desmatamento em busca do valioso pau-de-tinta (pau-brasil) que deu nome a essa terra criou uma região árida e que no futuro próximo de 1500 foi ocupado pela cana-de-açúcar e num futuro distante, viria se tornar um sumidouro de verbas públicas e perpetuação do mando das oligarquias agrárias mais ferrenhas, que com sua visão de progresso só pra si, freou uma demanda que atingiu em cheio o que é hoje um mercado promissor com mais de 30 milhões de almas.

Os últimos investimentos dos governos federal e estaduais têm melhorado em muito a roda da fortuna naquela região. Só para dar um exemplo, vamos citar o aparelhamento dos portos de Pecém no Ceará e a construção e aparelhamento do porto de Suape em Pernambuco. Esses portos estão situados na ponta mais avançada do país em direção à Europa e o Oriente, estrategicamente mais perto e se tornou um fator de diminuição do valor do frete do transporte marítimo. Hoje o Brasil é um grande exportador de tudo que se pode imaginar e nosso cliente estão no além-mar.

Um dos reflexos desse progresso são os investimentos que as três maiores redes de supermercados, Walmart, Carrefour e Pão de Açúcar, estão fazendo no estado de Pernambuco, são mais de 100 milhões de reais com a geração de mais de mil empregos diretos e, além desses gigantes um forte vento de expansão atinge as redes regionais como a eletro Shopping, Supermercado Bonanza de rede Arco-Ìris. A construção de mais dois shoppings center na capital e um no agreste vem de encontro às necessidades de consumo. A economia do Estado de Pernambuco cresceu no ano passado 3,8%, acima da média nacional.

Somados a esse surto de progresso e bem-estar social, vemos a indústria do turismo fincar o pé com uma força muito grande na região. Só na região de Natal foram construídos 12 resorts e um número igual espalhador por todas as regiões metropolitanas, atraindo divisas e gerando empregos que provoca um fenômeno inédito na região, os filhos dos retirantes estão fazendo o caminho inverso e buscando oportunidades de emprego nos locais onde seus pais tiveram que abandonar por falta de oportunidades.

Com a construção da Refinaria Abreu e Lima, um investimento de 13 Bilhões de dólares, gerou 20 mil empregos na sua construção e empregará 1.500 pessoas quando entrar em operação em 2011 e a capacitação da mão de obra deverá investir algo em torno de R$16 milhões nas escolas da região.

O Brasil está sendo redescoberto a partir do Nordeste outra vez.

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segunda-feira, 3 de maio de 2010

ASSISTIR À TELEVISÃO


Por Nélio Azevedo

Outro dia eu recebi um e-mail em que se alertavam para uma conspiração da Rede Globo para sabotar e destruir a família brasileira era um texto simplório e com propostas religiosas para enfrentar o apocalipse televisivo. Uma coisa é verdade, a baixa qualidade dos programas da TV aberta, principalmente os programas destinados ao que se habituou chamar de povão.
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Há um pressuposto de que o brasileiro mediano é um desaculturado, um incapaz mental e, que tem que ser uma programação medíocre para um povo medíocre. Seria o mesmo que usar o chavão – “Pra quem é bacalhau basta”!
Além de ser uma inverdade, é uma sacanagem que se faz contra um povo de uma cultura tão plural e tão rica. Basta assistir um pouquinho à TV Cultura que veremos lá uma gama de programas de alta qualidade com temas variados e com alta qualidade; sobre a nossa cultura, principalmente os documentários sobre a nossa música e folclore. O que mais espanta é que a TV Cultura é um subproduto das grandes redes de TV entidades patronais.

Diante desse rol de besteiras e bestialidades apresentadas diariamente na tela que invade nossas casas sem pedir licença, eu fico pensando nos seguintes questionamentos:
- Somos realmente um povo sem cultura?
- Nós merecemos esse nível de programas ou somos mais que bacalhau? (pescado sem cabeça)
- Será que a Rede Globo quer mesmo destruir a nossa cultura e família?
- Será que a banalização do sexo e da violência poderá moldar o caráter dos nossos filhos?
- Será que a tecnologia e as idéias aliadas à nossa cultura nos permitiriam ter uma programação              melhor?
- Será que os modismos ditados pela TV é que ditam o nosso dia-a-dia?
- Teriam mais uns mil, mas, vamos ficar só nesses por enquanto.

Acho que tem um pouco de verdade em todos eles, alguns macro-dimensionados, outros não são verdadeiros. Temos tantos exemplos de estrangeiros que vem passear aqui na Terra Brasílis e ficam apaixonados com o que encontram e alguns acabam por se mudarem para cá. Reclamam abertamente que em seu país – geralmente um país industrializado – as pessoas são muito frias e que o povo brasileiro é muito hospitaleiro e que isso aqui é o paraíso tropical imaginado.

Vejo um grande perigo na formação de opinião que esse fantástico veículo de comunicação de massa possa fazer, o padrão global é “roliudiano” e todos sabemos que não é uma das melhores coisas que se tem por lá; para tanto, basta ver o nível de porcaria que se produz com nome de grande produção em termos de cinema e programas de TV. Já li textos em que se recomendavam aos jornalistas que usassem sempre o termo terroristas quando fossem falar dos palestinos ou que se carregassem nas tintas quando o assunto fosse MST.

O brasileiro precisa parar com essa mania de pensar que não somos nada ou de que pouco valemos, precisamos melhorar nossa autoestima, olharmos para nós mesmos com um olhar diferente desse que tomamos emprestado de quem sempre nos olhou com um olhar de superioridade, de cima para baixo. Precisamos nos ver como realmente somos.

Por uma televisão que nos mostre menos BBB e mais feira de Caruaru, que nos mostre um Brasil que nós mesmos não conhecemos, nos apresente os regionalismos e particularidades que tanto atraem os visitantes que voltam ou teimam em ficar. Por uma televisão que tenha uma integração com os nossos traços culturais e valores mais significativos, que estampe sem pudor a nossa beleza morena, não ao padrão helênico imposto por Hollywood, que a nossa TV tenha a nossa cara e que nos reconheçamos nela a cada vez que ligarmos esse maldito-bendito aparelho.

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O Brasil tá tomando jeito

Por Nélio Azevedo

Será mesmo que o Brasil está tomando jeito de grande potência? Eu acho que sim, mesmo com todos os tropeços a que estamos sujeitos, vejo com bons olhos alguns indícios de que finalmente, estamos experimentando momentos nunca vistos nessa jovem república.

As Lojas Renner lançarão no mês de junho um cartão de crédito próprio, com o consentimento das duas gigantes Visa e Mastercard, mas sem as bandeiras da operadora.

Na mesma trilha, o Banco do Brasil e o Bradesco estão para lançar um cartão de crédito com a bandeira própria, se chamará Elo. Pode parecer que isso não tem muita importância ou que não nos afete diretamente, engano o seu; é que todo lucro auferido pelas duas vai direto para os EUA. Já imaginaram o que é isso? O dinheiro de plástico movimenta, só no Brasil, algo em torno de 500 bilhões de reais e, lançando sua bandeira e se instalando aqui a administradora, os lucros ficariam aqui e se tornariam receitas financeiras nas instituições.

Essa quebra do monopólio das operadoras nos colocaria o Brasil numa posição de vanguarda na disputa dentro do capitalismo de massa;  oferecendo aos usuários de cartão uma alternativa fora desse monopólio e, com certeza abriria uma guerra de tarifas semelhantes à das companhias aéreas e operadoras de telefonia móvel. Temos uma América Latina inteira e, porque não dizer, o mundo inteiro como possíveis clientes.

Num tempo em que as aplicações em fundos de investimentos populares superam a poupança, revelando um mudança de comportamento do povo que prefere comprar papéis ou bens do que poupar no instrumento mais tradicional que é a poupança, contrariando algumas expectativas pessimistas que apregoavam um ano difícil em decorrência da crise que assolou e ainda assusta países do grupo do Euro, o país e as instituições bancárias e financeiras vão muito bem, recentemente os BB comprou o Banco da Patagônia, fincando o pé numa economia que pode vir a dar bons resultados com o fortalecimento do Mercosul.

Não sentimos nenhuma saudade dos tempos em que o Presidente brasileiro só ia à reunião do G8 com o pires na mão, na condição de pedinte e se tivesse que enfrentar uma crise como a última, desceríamos pelo ralo sem a menor condescendência e sem fazer diferença par o FMI ou outro organismo que funcionam mais como sangue-sugas do que salvadores.

Estamos tomando jeito, sim. Jeito país grande, e, o que é melhor, não somos o país do futuro, somos o país do presente.

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domingo, 2 de maio de 2010

Um país protagonista


Não é o principal motivo de orgulho para os brasileiros o fato de seu presidente ter sido escolhido pela principal revista estadunidense Time como um dos líderes mais influentes do mundo. Em 25 de março, do ano passado o editor Fareed Zakaria, da revista britânica Newsweek, dizia ao presidente brasileiro ser ele “provavelmente o líder mais popular no mundo”. E perguntava: “Por quê?". Lula respondeu: "nós tentamos provar que era possível desenvolver crescimento econômico simultaneamente com melhora na distribuição de renda". Essa é provavelmente a grande diferença do Brasil de hoje para o Brasil de ontem, quando nossa economia era dirigida pelos homens do FMI. Não por brasileiros.

Em 2004, Lula já estava na lista da mesma Time. A revista reconhecia a liderança do presidente brasileiro numa “coalizão de nações em desenvolvimento que se recusaram a negociar novas regras de investimento estrangeiro até que os EUA e a União Europeia prometessem o fim dos subsídios agrícolas à exportação”. Para a revista, "ao contrário dos radicais contra a globalização, Lula insiste que não quer destruir a nova ordem mundial. Ele só quer que ela funcione de forma mais justa". 

Também não é o ponto principal do orgulho brasileiro o fato de, no ano passado, Lula haver recebido destaque internacional ao ser eleito personagem do ano pelo jornal espanhol El País e “o homem do ano” pelo francês Le Monde. Para El País, Lula é “um homem que assombra o mundo... ele é cabal e tenaz”.

Para Le Monde, “aos olhos de todos (Lula) encarna o renascimento de um gigante”. Em dezembro, o jornal britânico Financial Times também escolheu o presidente brasileiro como uma das 50 personalidades que moldaram a última década, porque “é o líder mais popular da história do Brasil”. “Charme e habilidade política... baixa inflação... programas eficientes de transferência de rendas...", disse o jornal.

Talvez devêssemos considerar que neste ano de 2010, antes da honraria da Time, o Brasil já havia sido distinguido pela Academia de Ciências Sociais da China. Os chineses querem mais representação para os emergentes, como o Brasil, “por serem indispensáveis”. No mais: O Times of Índia trata o presidente brasileiro de "herói em casa e estadista no palco global", "o homem do momento". Por seu turno, o estadunidense Yale Global disse do Brasil: “rompeu a aliança automática e submissa com os EUA e surfou a onda da globalização para se tornar uma potência econômica e diplomática”.

Ainda nos EUA, The Wall Street Journal, de 29/03, é ainda mais otimista em matéria de capa: “A ascensão do Brasil como um gigante econômico é um dos maiores temas de nosso tempo. Não está somente redefinindo a América Latina, mas também a economia do mundo inteiro”. De Israel, o importante Haaretz destacou o presidente Lula como o “Profeta do diálogo”, "o mais popular chefe de estado da história do país", de quem "o consenso universal é que simplesmente é impossível não gostar dele".

Não se pode deixar de sentir orgulho, no entanto, quando a comunidade midiática internacional reconhece o país Brasil como protagonista da economia e da política mundiais. Foi exatamente isto que constatou a quinta edição do levantamento feito pela agência de comunicação Imagem Corporativa, a partir de referências ao Brasil na mídia internacional nos primeiros três meses deste ano. Em comparação com o primeiro trimestre de 2009, a exposição brasileira deu um salto expressivo, passando de 671 para 1.111 matérias, sendo que cerca de 82% delas apresentam conteúdo favorável. Um orgulho que será completo quando os veículos de comunicação do Brasil trocarem a militância política pelo bom jornalismo.

Fonte: Boletim H S Liberal

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sábado, 1 de maio de 2010

PÁGINA VIRADA? ONDE?

Por Laerte Braga

A decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) preservando intocáveis os torturadores da ditadura militar que resultou do golpe de estado em 1964 não muda o caráter criminoso dessas figuras, à luz dos direitos fundamentais do homem, e nem transforma “valentes patriotas” como Brilhante Ulstra (coronel e ex-chefe do DOI CODI de São Paulo) em inocentes cumpridores do dever diante de “ameaças internacionais”.

O golpe de 1964 foi um movimento planejado, coordenado e executado a partir dos interesses norte-americanos na América Latina e especialmente no Brasil, país chave dessa parte do mundo. A maioria das forças armadas brasileiras apenas se submeteu (continua submissa) àqueles interesses e executou fielmente o que lhe fora determinado.

Dan Mitrione foi um agente da CIA. Veio ao Brasil com a tarefa de treinar militares e policiais da ditadura para reprimir reações à barbárie que tomou conta do País desde o 1º de abril de 1964. Foi um dos articuladores da Operação Condor, que juntou a repressão em todas as ditaduras latino-americanas, com ênfase no Brasil, Argentina e Uruguai para a eliminação sumária de opositores. Essas ações iam desde a tortura, sequestro, ao assassinato, passando pelo estupro.

A cumplicidade das elites brasileiras com esses crimes hediondos era plena e absoluta. Financiaram a boçalidade da ditadura (que lhe era servil). A chamada OBAN (OPERAÇÃO BANDEIRANTES) comandada pelo famigerado delegado Sérgio Fleury foi montada sob a coordenação de um empresário dinamarquês, com participação de empresas como a Mercedes, Supergasbras e os caminhões do jornal FOLHA DE SÃO PAULO (emprestava os caminhões para a desova de opositores assassinados. O documentários “CIDADÃO BOILESEN” conta essa história de vilania pura.

Os corpos eram entregues às famílias, os que foram, em caixões lacrados, com a expressa proibição de serem abertos e um laudo de “vítima de atropelamento”.

Militares argentinos e uruguaios, chilenos, que sufocaram seus países, como os brasileiros, boa parte deles está na cadeia cumprindo pena por esse tipo de crime. Aqui decidiram que vão ficar impunes. Militares e civis torturadores.

Dan Mitrione, que durante anos foi nome de rua em Belo Horizonte, na covardia e subserviência de um político sem caráter, morreu em em Montevidéu. Há suspeitas que o atual ministro das Comunicações Hélio Costa, sabidamente ligado a USAID (UNITED STATES AGENCY INTERNATIONAL DEVELOPEMENT) tenha sido seu intérprete no período que lecionou “tortura” aos militares brasileiros.

O ministro Eros Grau precisou de três horas para expor seu voto, foi o relator, tentando justificar o injustificável. O ministro Levandowsky demoliu-o ítem por ítem num voto coragem, dignidade e não importa que se diga que a decisão do STF teve o propósito de evitar uma crise política aguda envolvendo as forças armadas e o Estado.

O que são forças armadas? Estão à margem da lei, da Constituição? São intocáveis?

O que é uma sessão de tortura por exemplo. Um “patriota” tenha ele o nome de general Bandeira, ou coronel Ulstra, ou general Torres de Mello praticando violências físicas, morais e de toda a sorte contra pessoas indefesas que tiveram a coragem de se opor a uma ação militar que depôs um governo legítimo, o de João Goulart.

Quantos torturados, quantos desaparecidos, quantas mulheres estupradas, quantos inocentes,mera suspeita de contrariar a ordem vigente pela força, sofreram em mãos de criminosos travestidos de defensores da democracia e pior, da liberdade?

Uma recente entrevista do general Newton Cruz, ex-comandante militar do Planalto à época do ditador Figureiredo, há uma clara admissão que o atentado do Riocentro foi planejado para forjar uma ação “terrorista” e servir de pretexto para a continuidade do golpe um golpe dentro do golpe. É digno de ser estar nas forças armadas um oficial que tenha participado de semelhante ação?

Que espécie de patriotismo é esse?

De coragem, de bravura?

Isso tem outro nome, covardia e covardia das inomináveis, se é que covardia possa ser nominável; E se o for, nesse caso o nome é crime, é boçalidade.

A ditadura militar no Brasil e na América Latina foi um momento em que interesses norte-americanos (os EUA não são uma nação, mas um conglomerado de empresas escoradas num arsenal capaz de destruir o mundo duzentas vezes ou mais) vieram para garantir seus privilégios aqui em conluio com as elites econômicas do País, podres, sempre podres e erguidas no fausto FIESP/DASLU, ou em figuras repulsivas como hoje a senadora Kátia Abreu. O Brasil é o mais importante país latino-americano e a possibilidade real e concreta de escapar do controle dos “donos”, foi isso, movimentou os “patriotas” das nossas forças armadas, a maioria deles, sob o comando de um general com o nome de Vernon Walthers, que falava o português para se fazer entendido e bem entendido quando gritava “de quatro”.

Ficaram. Permanecem em sua grande maioria.

A decisão do STF não apaga a História e nem impede que os crimes cometidos por torturadores sejam mantidos em sigilo. O repúdio do brasileiro há que se dar pelo conhecimento do inteiro teor da estupidez dessa gente.

Nem se pode exigir muito do STF. Faltam figuras como Ribeiro da Costa, Hermes Lima, Evandro Lins e Silva, Victor Nunes Leal, Adauto Lúcio Cardoso e outros tantos que não se intimidariam, nunca, com forças armadas que se colocam à margem da lei, dos interesses nacionais e acoitam, é a palavra exata, procedimentos criminosos.

E não eram só militares. Conheci um promotor, Joaquim Simeão de Faria Filho, que presenciava sessões de tortura em sua área de atuação e depois “cantava” mulheres de presos políticos com promessas de “atenuar” as penas.

O Brasil é maior que o medo dessa gente, os ministros que votaram pela impunidade dos torturadores.

E essa não é uma página virada História. Ela há que ficar aberta para que se saiba que por trás dessa “canalhice patriótica” existem os que são capazes de sonhar e lutar por um ideal ainda que ele tenha custado a vida de muitos e muitos nos anos da barbárie militar.

É vergonhoso que torturadores se escondam atrás desse tipo de decisão. São fortes com os fracos, os que estavam presos, algemados, submissos nos cárceres, são fracos com os generais dos EUA que os mandam calar, ficar de quatro, garantir que o Brasil seja apenas um braço do império mais perverso e cruel de todos os tempos.

Ou com os empresários, os banqueiros, os latifundiários, cúmplices de uma época que não pode ser esquecida para que nunca mais se repita.

A ditadura apenas se transformou num arremedo de democracia. Tivemos Collor tentando entregar o País. FHC, o Collor II, entregando o País e agora temos a ameaça José Collor Arruda Serra.

Mais ou menos o que o general Golbery, um dos arquitetos do movimento de 64 dizia. “Sístole e diástole”. Ora de abertura, ora de fechamento, mas sempre a mesma coisa.

Ou o povo varre essa corja, ou então William Bonner, membro da corja, terá tido razão. Um bando de Homer Simpson, prontos a aceitar a coleira.

Não é o caso de muitos, de milhões e certamente seremos capazes de manifestar por todas as formas possíveis a repugnância por esse vômito chamado decisão do STF.

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